Sep
04
Brexit: 3 caminhos para o Reino Unido sair da encruzilhada


A data fixada em lei para o Brexit, que é a saída do Reino Unido da União Europeia, está se aproximando: o dia 29 de
março. Mas os britânicos ainda estão bem longe de um consenso sobre os termos
desse divórcio com o bloco europeu. Sou Nathalia Passarinho, repórter da BBC News
Brasil em Londres e vou tratar hoje das três possíveis saídas desta encruzilhada.
Em pouco mais de um mês, a primeira-ministra britânica, Theresa May, passou
por dois sufocos e uma derrota histórica. Ela sobreviveu a duas moções
de desconfiança, que é quando o parlamento questiona a liderança do
primeiro-ministro e faz uma votação para decidir se ele ou ela deve permanecer no
cargo May portanto venceu essas votações, mas
viu a proposta que tinha negociado para o Brexit derrubada por uma maioria
esmagadora. E agora? O primeiro dos três caminhos passa pela negociação no
parlamento de um acordo alternativo com algumas mudanças para amenizar os
impactos da saída do Reino Unido do bloco europeu. Essa é a vontade de Theresa
May. Essas medidas são coisas como garantias para que os britânicos que já
moram em países europeus e os europeus que moram aqui possam continuar a
trabalhar e estudar onde estão e trazer as famílias.
O novo acordo também tem que fixar um período de transição.
Na proposta que foi derrubada, o Reino Unido continuaria por 21 meses seguindo
as regras de comércio da União Europeia enquanto negocia novos acordos
bilaterais de comércio. Agora, o ponto mais polêmico que fez com que rebeldes
do próprio partido de May derrubassem a proposta original diz respeito à
fronteira entre as duas Irlandas. A Irlanda do Norte é território britânico
e a Irlanda é um país independente que faz parte da União Europeia. Por muitos
anos, houve conflitos sangrentos entre esses dois territórios. O assunto é tão
complexo que mereceria um vídeo a parte Tirando questões históricas e religiosas, pode-se
dizer que um lado queria que a Irlanda como um todo se tornasse um país
independente, o outro queria que o território fosse todo britânico. A
disputa acabou com negociações de paz no final da década de 90 e um dos pilares
desse acordo foi não ter uma fronteira rígida entre Irlanda do Norte e a
República da Irlanda. Com o Brexit, essa fronteira voltaria a existir, já que o
Reino Unido estaria sujeito a regras de comércio e trânsito de pessoas
diferentes das do bloco europeu O acordo da primeira-ministra previa o
chamado backstop. O que é isso? Uma cláusula que impediria a instalação de
um controle alfandegário, caso o Reino Unido e Europa não chegassem a um acordo
sobre regras comerciais durante a transição. O problema é que defensores do
Brexit temem que, na prática, essa cláusula permita que o Reino Unido
continue amarrado à União Europeia, afinal parte do território seguiria
regras de livre comércio. Para contornar as críticas que isso, na prática
deixaria o Reino Unido amarrado à União Europeia, Theresa May quer garantias que o
backstop vai ser temporário. Mas olha, ao que tudo indica, não vai ser nada fácil
chegar a um consenso sobre isso. O segundo caminho ou o no deal. Em português, isso
significa simplesmente sem acordo. Nesse caso, o Reino Unido deixaria a União
Europeia em 29 de março sem qualquer regra de transição nem proteção a migrantes europeus e acordos de comércio. O Bank of England, que é o Banco
Central britânico, já disse que, se isso acontecer, o Reino Unido vai viver uma
recessão pior que a da crise financeira internacional de 2008. A previsão é que a
economia encolha 8% este ano. Empresas britânicas teriam que pagar da noite pro
dia tarifas de exportação e importação sobre produtos que vendem ou compram da
Europa. Além disso, bancos e empresas que hoje têm sede no Reino Unido terão que
migrar para países europeus para manter as condições comerciais e até os
funcionários que vêm de diferentes países do continente. Sem contar o mar
de burocracia que teria que ser implementado da noite pro dia. A maioria
dos trabalhistas e conservadores diz que quer evitar esse cenário. Por outro lado,
há quem diga que um Brexit mais radical devolveria ao Reino Unido
controle total nas fronteiras e sobre a própria economia. O último caminho passa
por um plebiscito. Essa ideia vem ganhando força principalmente na oposição, no
Partido Trabalhista. Mas muita gente é contra por acreditar que seria um
desrespeito à consulta popular de dois anos e meio atrás, quando 51,9%
dos britânicos optaram pelo Brexit Já quem defende um novo plebiscito
argumenta que a campanha do Brexit foi pautada por mentiras, como a afirmação
de que a saída da União Europeia iria trazer milhões de libras a mais para o serviço
público de saúde, o NHS Para esse grupo, o povo britânico deve
ter o direito de escolher novamente se quer ou não o divórcio com a União
Europeia. A primeira-ministra até agora não deu indicação que pretende convocar
um novo plebiscito. E, para isso acontecer, o prazo de saída do Reino Unido, dia 29
de março, teria que ser adiado. O parlamento teria que aprovar uma
legislação com regras específicas para um novo plebiscito. Se a lei for aprovada,
várias etapas teriam que ser cumpridas, como um período de campanha informativa.
Todo o processo, segundo especialistas do University College London, duraria no
mínimo seis meses. Bom, por enquanto todas as cartas estão na mesa. As próximas
semanas vão ser decisivas para saber qual desses três caminhos o Reino Unido
vai trilhar Em meio a tudo isso, Theresa May, cada vez
mais enfraquecida politicamente, ainda vai ter que lutar para se manter no
poder Ela pode ser alvo de novas moções de
desconfiança No meio
de tanta incerteza, pode até parecer estranho que a vida siga normalmente
para os britânicos. Quando a gente anda pelas ruas aqui em Londres,
nem parece que o país está diante de um futuro tão incerto. Vamos ver se esse
sangue frio todo vai continuar nas próximas semanas. A gente vai continuar
acompanhando essa história para você não ficar de fora. Gostou do vídeo? Então,
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